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14 junho 2016

The Guardian: o respeito a seleção brasileira



Os recentes vexames da Seleção Brasileira e o afastamento da torcida perante a seleção mostram que o problema vai muito além das quatro linhas e de quem escala os "onze". 
A Seleção Brasileira valorizou uma competição que quase nenhuma seleção valoriza em detrimento de uma das melhores edições - além de histórica - de Copa América dos últimos tempos.
Com inúmeros cortes por contusão ou por "problemas pessoais", a seleção foi esvaziada para a histórica competição. 
Após o 7 a 1, havia um clamor por mudanças, tanto dentro como fora de campo. A escolha da entidade máxima do futebol brasileiro foi chamar de volta quem ela demitira quatro anos antes e que no período entre a Copa da África do Sul e a do Brasil não teve um trabalho sequer que justificasse seu retorno à Canarinho.
As decisões feitas por dirigentes que sequer podem viajar para os Estados Unidos, pois podem ser presos por corrupção mostram a inercia dos dirigente perante ao selecionado brasileiro e isso se reflete dentro de campo com jogadores sem gana e um "treinador" que nunca fez nada para merecer comandar uma seleção pentacampeã.

Mesmo com fracassos humilhantes, um dos jornais mais conceituados do mundo, o The Guardian, mostrou respeito com a Seleção e com o país em que vivemos. 


Tradução:

“Problemas do Brasil são muito mais profundos do que a saída precoce da Copa América”

Esqueça a notória injustiça. Tente, se puder, erradicar da sua memória uma das piores atuações de um árbitro em um torneio importante.
Sim, o infeliz arbitro uruguaio, Andrés Cunha, deu uma gigantesca mancada validando o gol de Raúl Ruidíaz que deu a vitória ao Peru na noite do último domingo, apesar do lance ter sido claramente com a mão. Esse resultado – e suas repercussões, que serão longas, árduas e potencialmente levarão alguns a procurar emprego após a chocante saída do Brasil da Copa América Centenário – foi, no entanto, bem mais do que um erro de arbitragem.
É a história dos reis do futebolcinco vezes campeões mundiais,donos do “jogo bonito”em uma jornada de dois anos pela sarjeta. É a história de um país vibrante, fascinante, culturalmente rico se desmontando em meio a uma economia debilitada e uma crise política. A história de torcedores cansados da incompetência da CBF, entidade que administra o futebol brasileiro, envergonhando um povo orgulhoso que merece muito mais.
O resultado de domingo foi recebido com desinteresse pelos brasileiros. Em geral, o povo tem estado mais interessado no futebol doméstico: apatia e desilusão quanto à seleção nacional se proliferaram desde que a Alemanha aplicou aquela surra inacreditável por 7 a 1 na semifinal da Copa, dois anos atrás. A Seleção, já vista como time do povo, um vestígio de esperança para pessoas que vivem com nada, traiu a nação, e há uma desconexão preocupante se manifestando agora. Muitos no Brasil questionam os bilhões de dólares gastos para receber a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos quando milhões seguem vivendo na pobreza mais abjeta.
O ex-presidente da CBF, José Maria Marin, foi preso com outros nove em maio de 2015, na investida do FBI contra a corrupção na Fifa. Meses depois, também bateram na porta de seu sucessor, Marco Polo Del Nero. Por isso, é pouco surpreendente que o Brasil tenha falhado em mais uma grande competição quando homens assim são os responsáveis por liderar a recuperação do time. E dois anos após aquela incrível, inesquecível noite contra a Alemanha, há escassos sinais de melhora. A derrota para o Peru foi só mais um golpe em uma equipe já esfacelada, tombada sobre o gramado.
No domingo, o técnico brasileiro, Dunga, parecia desamparado à beira do gramado. Nessa sua segunda passagem pela Seleção, seus dias certamente estão contados. De fato, se não fossem os Jogos do Rio, seu cargo com certeza estaria vago. O homem que levantou a taça na Copa de 1994 – por acaso, nos EUA – sabe que a medalha de ouro em casa é prioridade, e por isso Neymar foi liberado para respirar passeando com Justin Bieber e outros “compadres” de alto garbo.
É claro que perder os serviços do brilhante atacante do Barcelona foi algo com que o time de Dunga não conseguiu lidar – marcou sete gols nesta Copa América mas todos no jogo contra o time mais fraco do torneio, Haiti – mas para um país cuja linha de produção sempre foi invejada pelo mundo, ainda deveria haver qualidade suficiente para sair vivo de um grupo com Peru, Haiti e Equador.
Por isso, Dunga, um homem que não tem o temperamento ou o vigor para alentar uma nação que clama por inspiração, deve carregar a culpa. Ainda que a lesão de Douglas Costa antes do torneio tenha sido uma infelicidade (a lista de lesões do Brasil teve seis nomes), a Seleção tentou trazer sangue novo para tentar sair do fundo do poço que representou aquele 7 a 1.
Ainda há qualidade – Philippe Coutinho, Casemiro, Willian e o machucado Oscar – são talentos de alto nível, enquanto Jonas teve uma temporada impressionante pelo Benfica, ainda que não tenha conseguido trazer essa forma para a Seleção. Gabriel, o atacante de 19 anos do Santos, tem um futuro promissor à sua frente.
Mas apesar desses pontos de brilho, existe uma preocupante falta de talento na finalização para um país que produziu Pelé, Romário e Ronaldo. Que o Brasil tenha deixado de marcar em dois de seus últimos três jogos nos últimos dez dias é uma preocupação real. Peru jogou na defensiva em grande parte do jogo da última noite, e o Brasil das antigas, aquele da mágica nos pés e sorrisos nos rostos, teria tomado o controle da partida e criado o necessário para cumprir a missão. Mas a classe de 2016 – sendo um time B ou não – simplesmente não conseguiu.
Eles foram sortudos ao sair com um empate na abertura contra um Equador que, graças a uma arbitragem talvez mais questionável,deveria ter ficado com os três pontos. O Haiti foi destroçado em Orlando, no que mais pareceu uma sessão de treinamento glorificada, maquiando os problemas que reapareceram com tudo nesta manhã quando o Brasil volta para casa, cabeças baixas.
A clara negatividade de Dunga, somada às múltiplas pressões para levantar o povo brasileiro, contribuíram para essa última e abjeta vergonha. O treinador até tentou dar mais leveza em vez de solidez defensiva na noite do domingo, optando por Lucas Lima como substituto do suspenso Casemiro, deixando de lado Wallace, mais defensivo. Eles estiveram bem durante boa parte do jogo mas, ainda assim, perderam para um time jovem e experimental do Peru.
Na realidade, essa edição da Copa, tão próxima da anterior, não era a prova de fogo para o Brasil. As Olimpíadas são o objetivo máximo deste ano, e Neymar estará de volta, mas com o time contando apenas com jogadores sub-23, é diícil comparar e contrastar com o que foi passado nos Estados Unidos.
Se eles forem bem – e isso deixou de ser um certeza – a esperança pode retornar. Porém, em breve ela se dissipará, e os mesmos problemas seguirão. As ruas estarão carregadas de indignação. O abismo vai crescer. A raiva vai se intensificar – e o pior pode estar logo ali com o Brasil fora da zona de classificação para a Copa do Mundo de 2018.
Uma mudança no topo precisa ser feita, mas o ‘timing’ não poderia ser pior. O povo brasileiro, e seu glorioso legado futebolístico, merecem mais.


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